Durante décadas, a puntura foi frequentemente associada a práticas alternativas ou a explicações não enquadradas na medicina moderna. No entanto, essa perceção mudou de forma significativa. Atualmente, a puntura é uma intervenção amplamente estudada, suportada por evidência científica robusta e integrada em contextos clínicos baseados na anatomia, fisiologia e neurociência.
O crescimento exponencial da investigação em puntura
Nos últimos 20 anos, a investigação científica em torno da puntura registou um crescimento exponencial. Foram publicados mais de 13.000 estudos científicos em cerca de 60 países, incluindo centenas de meta-análises que sintetizam resultados obtidos em estudos com humanos e modelos animais.
Estas investigações abrangem uma vasta diversidade de áreas clínicas, como:
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Dor músculo-esquelética e neuropática
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Neoplasias
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Gravidez
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Acidente vascular cerebral
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Perturbações do humor
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Distúrbios do sono
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Processos inflamatórios
Face a este volume e qualidade de investigação, deixou de ser cientificamente válido atribuir os efeitos da puntura exclusivamente ao efeito placebo ou limitá-la apenas ao tratamento da dor músculo-esquelética.
Puntura versus tratamentos convencionais: o que dizem os estudos comparativos
Várias meta-análises comparativas demonstram a eficácia da puntura face a intervenções convencionais em diferentes patologias:
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Osteoartrose do joelho: uma meta-análise de 2013 concluiu que, em estudos de elevada qualidade, a puntura apresentou um efeito superior quando comparada com outros tratamentos físicos.
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Conflito subacromial: em 2015, a puntura foi identificada como o tratamento adjuvante mais eficaz entre 17 intervenções analisadas, superando infiltrações com corticosteróides, AINEs e ultra-sons.
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Ciática: um estudo comparativo de 2016 classificou a puntura como a segunda terapia mais eficaz, apenas atrás dos agentes biológicos, superando cirurgia, opioides, exercício terapêutico e manipulação manual.
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Obstipação crónica: uma meta-análise de 2018 demonstrou que a puntura foi mais eficaz do que a terapêutica farmacológica, com menor incidência de efeitos adversos.
Estes resultados levaram ao reconhecimento formal da puntura por entidades médicas e científicas, deixando de ser considerada uma prática “alternativa” e passando a integrar recomendações clínicas na medicina moderna.
A puntura na neurofisiologia da dor
A área mais extensivamente investigada no contexto da puntura é a neurofisiologia da dor, com mais de 60 anos de investigação contínua. Estudos detalharam os mecanismos neurobiológicos envolvidos, incluindo a ativação de fibras nervosas especializadas (Aδ, Aβ e C) e das vias descendentes do sistema nervoso central.
Foram identificados múltiplos mediadores bioquímicos associados aos efeitos da puntura, tais como:
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Neuropeptídeos opióides endógenos (endorfinas, encefalinas, dinorfinas, endomorfinas)
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Neuropeptídeos não opióides (substância P, VIP, CGRP)
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Neurotransmissores como serotonina, dopamina, norepinefrina e GABA
Estes mediadores explicam os efeitos analgésicos e anti-inflamatórios observados clinicamente, incluindo o impacto em patologias como enxaquecas e outras cefaleias.
Sinalização purinérgica: um mecanismo central
Um dos mecanismos mais relevantes identificados é a sinalização purinérgica, um sistema biológico primitivo e universal que utiliza ATP e adenosina como mediadores de comunicação celular. A puntura ativa diretamente este sistema, desencadeando respostas moduladoras em múltiplos tecidos e sistemas orgânicos.
A sinalização purinérgica está envolvida em processos como:
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Modulação da dor
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Resposta inflamatória e imunitária
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Função cardiovascular
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Regulação endócrina
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Doenças neurológicas e neurodegenerativas
Este enquadramento explica porque a puntura apresenta efeitos clínicos consistentes em áreas tão diversas.
Uma visão clínica actual da puntura
A puntura contemporânea assenta numa abordagem neurofuncional, baseada exclusivamente em conceitos atuais de anatomofisiologia. A estimulação do sistema nervoso periférico através da punctura em diferentes tecidos — pele, músculo, periósteo, cápsulas articulares e estruturas peri-neurais — permite modular o sistema nervoso central e periférico a vários níveis: local, segmentar, extra-segmentar e supra-segmentar.
Neste modelo, é obrigatória uma avaliação clínica e funcional detalhada, com identificação precisa da disfunção segmentar neurológica, garantindo que a intervenção é planeada de forma específica e segura para cada patologia neuro-músculo-esquelética.
Conclusão
A evidência científica atual demonstra de forma clara que a puntura é uma intervenção clínica eficaz, segura e sustentada por mecanismos neurofisiológicos bem documentados. Longe de abordagens empíricas ou tradicionais, a puntura moderna integra-se plenamente na prática clínica baseada na ciência, assumindo um papel relevante na fisioterapia invasiva e noutras áreas da medicina contemporânea





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