Reconhecido internacionalmente como especialista em fisioterapia neurofuncional, André Santos regressa a Portugal com a Master para conduzir mais uma edição da formação Reabilitação Vestibular: Avaliação e Tratamento e explica-nos as razões que fazem deste campo um dos mais cativantes.
Entre experiências, diagnósticos e raciocínio clínico, o recém-empossado presidente da Associação Brasileira de Fisioterapia Neurofuncional (ABRAFIN) revela o que distingue um profissional de excelência e lembra que o exercício clínico exige racionalidade e ferramentas de avaliação validadas.
Por isso, os três dias do cursos serão vividos junto à marquesa, trabalhando casos reais e desenvolvendo ferramentas que os participantes poderão usar imediatamente em consulta.
Depois de mais de duas décadas de prática clínica, o que o continua a cativar na área da vertigem e reabilitação vestibular?
O constante desafio em manter-me atualizado cientificamente, aliado ao orgulho de poder ajudar os utentes que tanto sofrem dos males da tontura. Com muita frequência, os resultados clínicos são muito rápidos. Às vezes, até no próprio dia. Isso faz com que fique muito satisfeito por ter escolhido a fisioterapia vestibular há muitos anos.
Tornou-se recentemente presidente da ABRAFIN. Que visão quer trazer para o futuro da fisioterapia neurofuncional?
É um orgulho poder participar nesta experiência e ter a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento de uma especialidade tão nobre como a Fisioterapia Neurofuncional (FN) nas suas três vertentes: FN na infância e adolescência; FN no adulto e no idoso e FN vestibular. A visão é muito simples, embora o espectro seja bem amplo: estimular ações e práticas que permitam o acesso da população brasileira aos benefícios que diversos profissionais, docentes e pesquisadores da FN podem fornecer, com as suas experiências e sólida formação na área.
A VPPB é muitas vezes o ponto de entrada para esta área. O que diferencia um domínio básico de um domínio realmente avançado?
De facto, o diagnóstico da VPPB tornou-se mais popular nos últimos anos. Mas não nos surpreende, porque já alcançava altos patamares de prevalência como líder das doenças do labirinto. O utente procura um profissional de saúde para resolver o problema num curto período de tempo, como é o caso da VPPB, mas não recomendaria o estudante ou o profissional a pensarem por essa perspetiva. O domínio avançado diferencia-se quando o profissional percebe e tem conhecimento que o que está à procura é o diagnóstico mais preciso, independente da VPPB, mediante uma boa avaliação clínica, fundamentada nas evidências científicas. Nas minhas aulas revejo sempre com os alunos o significado da frase do grande fisiologista do Séc XIX, o Prof. Claude Bernard: "Quem não sabe o que procura, não percebe quando encontra". Isto significa que, mesmo perante um suposto diagnóstico de VPPB, podemos deparar-nos com outras possibilidades, inclusive, que não tenha a ver com o sistema vestibular. Na prática, não há grandes dificuldades em detetar a VPPB. No entanto, ela requer conhecimento para a sua confirmação e qual o tipo de manobra terapêutica será utilizada. Surpreendentemente, a VPPB pode não estar presente. Nesses casos, a sua experiência clínica pode fazer muita diferença na condução daquele utente, que pode necessitar de outras abordagens. E essas são aprendidas na formação.
"Nas minhas aulas revejo sempre com os alunos o significado da frase do grande fisiologista do Séc XIX, o Prof. Claude Bernard: 'Quem não sabe o que procura, não percebe quando encontra'.
O que define um clínico de excelência na abordagem às síndromes vestibulares?
Não agir intempestivamente, seja numa hipótese diagnóstica ou na escolha de uma abordagem terapêutica. Ouvir atentamente o utente é o principal elemento de toda a sua prática. Por mais treinado que um profissional seja, ao desviar-se de um roteiro clínico, com entrevista, exame físico racional, exames complementares - se necessário - e o uso de questionários validados, aumenta o risco de executar alguma modalidade terapêutica equivocada. E isso não será bom para o utente. Agir de forma a que a empatia seja soberana e que o seu conhecimento e treino sejam aplicados de forma ética e personalizada, minimiza erros e permite um desfecho terapêutico mais satisfatório.
Qual foi o caso mais complicado com que teve de lidar? Como o resolveu?
Os raros casos em que o utente apresenta respostas vegetativas, como náusea, vómito, diarreia, sudorese, etc., mediante algum procedimento diagnóstico ou terapêutico da sua parte. Passei por isso algumas vezes, mas pode controlar-se a situação com algumas medidas. A primeira, e mais importante, está na anamnese, ao saber, inclusive, do histórico do utente. O recomendável para evitar situações como essa é seguir o protocolo de forma rigorosa, como o posicionamento do utente em determinados testes, explicar detalhadamente o procedimento antes de o executar, assim como apresentar as possibilidades de reações indesejáveis, entre outras medidas. Em síntese, na área de saúde pode ter-se algum efeito indesejável algumas vezes, mas, se formos claros na anamnese e transcorrermos com tranquilidade a nossa abordagem física no utente, geralmente garantimos o que ele mais precisa num momento mais intenso de sintomas: confiança.
Como vê a evolução da reabilitação vestibular nos próximos anos. O que vai mudar na forma como os clínicos abordam estes pacientes?
A evolução é constante e tenho muito orgulho de fazer parte dessa história, levando o meu conhecimento e prática clínica a muitos lugares pelo Mundo. Mas é verdade que o advento de recursos com alta tecnologia, com apoio da inteligência artificial, realidade virtual e robótica, aliada ao crescimento do acompanhamento por tele-consulta e tele-atendimento, configuram incríveis possibilidades aos utentes. Mas o domínio da arte do movimento e a atuação segura e criativa que o fisioterapeuta pode agregar, na minha visão, são e serão insubstituíveis.
"A disciplina, experiência e aperfeiçoamento do profissional terão impacto direto nos resultados do tratamento, tornado-os mais efetivos, seguros e transformadores para a vida do paciente"
A formação que realiza com a Master propõe uma abordagem estruturada ao raciocínio clínico. Como é que isso muda a forma como um profissional decide em consulta?
O diagnóstico cinético-funcional é o principal objetivo, pois permitirá definir e executar os objetivos terapêuticos com mais propriedade. Além de uma entrevista detalhada com o utente, a abordagem clínica na prática exige racionalidade ou a utilização de ferramentas de avaliação validadas cientificamente, como questionários e escalas. Outro aspeto importante com essas ferramentas é a possibilidade de individualização da avaliação, inclusive, comparando os resultados nas fases pré e pós-intervenção terapêutica. A disciplina, experiência e aperfeiçoamento do profissional com essas características terão impacto direto nos resultados do tratamento, tornado-os mais efetivos, seguros e transformadores para a vida do paciente.
Muitos clínicos já tiveram contacto com esta área. O que encontra com mais frequência: dificuldade no diagnóstico, na execução ou na tomada de decisão?
Sem dúvida, no diagnóstico. Quando este é duvidoso, implica tomadas de decisão inseguras e, consequentemente, a execução não terá efetividade ou aumentará o risco de agravar a situação e comprometer o prognóstico. O fisioterapeuta, por conceito, utiliza recursos físicos para alcançar resultados positivamente impactantes relacionados à recuperação da funcionalidade. Para isso, utiliza-se do seu profundo conhecimento de disciplinas básicas, como biologia e anatomia, até as mais complexas, como a interação entre diversos sistemas sensório-motores, nomeadamente os sistemas vestibular, somatossenssorial e visu-oculomotor. Com esse domínio e um treino prático adequado, o sucesso de toda a intervenção poderá ser alcançado. O reabilitador precisa de ter a consciência de seu maior escopo, que é o movimento humano. Não atuamos sobre a doença, mas sim sobre componentes estruturais, atividade, participação, fatores ambientais e pessoais, que constituem uma visão mais holística, contemplada pela visão bio-psico-social do indivíduo, de acordo com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS). Torna-se imperioso que o profissional explore ao máximo todas as possibilidades que a anamnese e o exame físico racional oferecem. Somos especialistas do movimento.
Há algum erro ou abordagem que veja repetidamente na prática clínica que esta formação ajuda a corrigir?
Não necessariamente erro. Mas percebo em alguns colegas a tímida condução prática virada para a avaliação e o diagnóstico funcional vestibular precisos. A formação em reabilitação vestibular que oferecemos desde 2014 permite que o aluno entre em contacto com um aprofundamento neuroanatomofisiológico dos sistemas de controle postural humano e com as principais ferramentas de avaliação física da área. O raciocínio clínico é conduzido em sala de aula, através de exemplos de casos clínicos reais, permitindo que o aluno possa construir o diagnóstico funcional e configurar o caminho terapêutico ideal para cada caso.
"Casos atípicos de VPPB serão analisados e aplicados como treino prático no momento da formação. O raciocínio de um formando sofre mudanças desde o primeiro dia"
A componente prática é central. Que tipo de competências o formando consegue aplicar de forma imediata no dia seguinte?
O formando será capaz de realizar uma anamnese dirigida e voltada para os componentes anatómicos e fisiológicos relacionados ao equilíbrio corporal, para se atingir um diagnóstico funcional apropriado. O aluno conseguirá, também, aplicar os procedimentos terapêuticos nos quadros mais comuns da prática clínica diária, como a vertigem posicional paroxística benigna (a "doença" dos cristais deslocados) ou prescrever a cinesioterapia indicada para os casos de disfunção vestibular periférica e centrais. O formando vai aprender a utilizar questionários, escalas, etc., que contribuem para confirmar sua hipótese diagnóstica, de forma clara e inequívoca. É interessante ressaltar que muitas das ferramentas utilizadas, bem como os testes clínicos aplicados, podem ser utilizados como recurso terapêutico.
Trabalha com casos reais e situações complexas. Qual é o momento em que percebe que “algo mudou” no raciocínio de um formando?
Sim, o estudo de casos clínicos e o passo-a-passo da avaliação junto à marquesa, que desafiam os profissionais na clínica diária. Casos atípicos de VPPB serão analisados e, em seguida, aplicados como treino prático no momento da formação. O raciocínio de um formando sofre mudanças desde o primeiro dia, em que o professor aprofunda o debate sobre o diagnóstico que o profissional deve ter em conta na sua prática: cinético-funcional e não o raciocínio biomédico voltado para doença. Outro momento curioso é quando simulamos casos reais, em que o formando elabora as perguntas adequadas ao utente. Eles percebem o quanto já se apoderaram de um conhecimento. Muitas vezes, até aquele momento era considerado inédito. A curva de aprendizagem prática na formação é bem nítida e considerada rápida.
Se tivesse de resumir numa ideia: o que é que um profissional leva desta formação que realmente fica para a carreira?
O formando experimenta claramente a importância da sua existência profissional como um ente ativo na construção do diagnóstico funcional relacionado ao quadro clínico do utente. Entende, também, que dessa forma é uma peça fundamental sobre o conceito de funcionalidade, culminando com a transformação do saber num leque de opções terapêuticas a ser oferecido numa das áreas clínicas mais incapacitantes que um paciente pode experimentar. Embora a alta tecnologia esteja avançada nos casos de tontura e desequilíbrio corporal, a reabilitação vestibular vale-se de exigências neurossensoriais, que respondem muito bem com recursos mais simples, como manobras terapêuticas para uns casos e exercícios terapêuticos para outros.





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Dor Pélvica Crónica: causas, impacto funcional e o papel da fisioterapia no tratamento