Saúde

Lipodistrofia: saber intervir com base na evidência científica

Saber identificar sinais e sintomas de inflamação do tecido adiposo é fundamental para o sucesso da intervenção fisioterapêutica.

Se julgas que a lipodistrofia é uma questão meramente estética, então ficarás surpreendido com a quantidade de informação que esta acumulação e distribuição anormal de tecido adiposo no corpo te pode fornecer!


Existem dois tipos principais de tecido adiposo: o tecido adiposo castanho (brown adipose tissue - BAT), mais relacionado com o efeito termogénico e o tecido adiposo branco (white adipose tissue – WAT), mais associado a obesidade e distúrbios alimentares. Muito embora, fisiologicamente, ambos assumam papéis diferentes, ambos se correlacionam e se organizam para a manutenção de importantes funções no organismo, pelo que ambos são extremamente importantes na avaliação e diagnóstico de diversas patologias, não apenas metabólicas, como também do foro neuro-musculo-esquelético devido à extraordinária plasticidade do tecido adiposo.


Diversos estudos comprovaram que o WAT pode reorganizar-se e desenvolver-se em regiões sujeitas a stress mecânico, tais como articulações, tecido dérmico subcutâneo, tecido conjuntivo intermuscular, nas inserções teno-ósseas, entre outras, segundo o mecanismo de transdiferenciação reversível.


Outros estudos revelaram ainda que o processo degenerativo das fibras musculares subjacente à atrofia, dá lugar ao desenvolvimento de tecido conjuntivo não diferenciado intramuscular que, devido à ação fagocitária sobre as fibras degeneradas e dos fibroblastos envolvidos na regeneração e reorganização do tecido conjuntivo muscular, promove a formação de tecido adiposo WAT no interior do músculo.


Verificou-se ainda que distúrbios como paniculites, lipedemas e obesidade visceral, dão origem a um estado de inflamação sistémica de baixo grau, através de vários mecanismos associados a sobrecarga metabólica dos adipócitos, que desencadeia reações de stresse oxidativo e de macrófagos pró-inflamatórios. Deste modo, a hipertrofia dos adipócitos origina a sua implosão, o que desencadeia uma resposta inflamatória dolorosa que ativa os nociceptores dos tecidos moles circundantes, como o tecido muscular e o próprio sistema tegumentar. Por essa razão, a reação destes tecidos à massagem tende a ser de agravamento dos sintomas álgicos e inflamatórios, pelo que o paciente piora, em vez de melhorar.


Assim sendo, identificar sinais e sintomas de inflamação do tecido adiposo bem como dominar os mecanismos de modulação do tecido adiposo torna-se fulcral para um tratamento eficaz e bem tolerado pelo paciente. A capacidade de intervenção, pelo fisioterapeuta, é fundamental para o sucesso do tratamento!


Aqui ficam algumas referências bibliográficas relevantes sobre o tema:


1. Cinti S. The adipose organ at a glance. Dis Model Mech. 2012; 5(5): 588-594


2. Cinti S. Adipocyte differentiation and transdifferentiation: plasticity of the adipose organ. J Endocrinal Invest. 2002; 25(10): 823-35


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6. Xiuquan Ma, Paul Lee, Donald J. Chisholm, David E. James. Control of Adipocyte Differentiation in Different Fat Depots; Implications for Pathophysiology or Therapy. Front Endocrinol (Lausanne). 2015; 6: 1.


7. Benjamen T. O’Donnell, Sara Al-Ghadban, Clara J. Ives et. al. Adipose Tissue-Derived Stem Cells Retain Their Adipocyte Differentiation Potential in Three-Dimensional Hydrogels and Bioreactors. Biomolecules. 2020 Jul; 10(7): 1070.

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