Exercício

Treino progressivo com resistências na melhoria das funções cognitivas

Treino com resistências pode ter papel preventivo em relação a estados de demência

Um estudo recente - Hippocampal plasticity underpins long-term cognitive gains from resistance in MCI - veio demonstrar o impacto positivo de longa duração do treino progressivo com resistências em subestruturas hipocampais, cíngulo posterior, bem como conexões funcionais entre estas estruturas. 


Apesar de ser normalmente assumido que os mecanismos solicitados durante a prática dos exercícios persistem após o término dos mesmos, sendo esses mesmos mecanismos responsáveis pelos benefícios encontrados, os dados apresentados pelos autores contrariam esta ideia, sugerindo que existem mecanismos distintos durante e após a realização dos exercícios, numa cascata de mecanismos terapêuticos que combinados suportam/melhoram a cognição.


Num artigo passado (Suo et al., 2016) os dados indicam que os ganhos cognitivos que ocorrem “dentro do treino” são acoplados com plasticidade estrutural de curto e médio prazo no cíngulo posterior.


O cíngulo posterior tem fortes e recíprocas conexões com o hipocampo, bem como outras áreas corticais e subcorticais, sendo que o treino com resistências possivelmente aumenta a conectividade funcional entre estas duas estruturas. 


E qual a importância destas estruturas? 


A demência, que afecta cerca de 47 milhões de indivíduos em todo o mundo, e que se estima que em 2050 afete 150 milhões de pessoas, tem como estádio precedente o que conhecemos como comprometimento cognitivo médio (Mild Cognitive Impairment – MCI), sendo que este estádio aumenta o risco 3-5x de progressão para demência.


Ora um estudo de Jack et al. (2000) demonstrou que a hipotrofia do hipocampo pode preceder em anos o comprometimento cognitivo.


Assim, tendo em conta os dados evidenciados no primeiro artigo referido, facilmente percebemos que o treino com resistências pode ter um importante papel preventivo relativamente à demência.


O exercício aeróbico também foi sugerido como um promotor da plasticidade hipocampal, no entanto, os estudos levados a cabo produziram resultados “mistos”, sendo que uns demonstraram benefícios enquanto outros falharam na tentativa de replicar os efeitos tróficos positivos. 


Assim, e em jeito de conclusão, devemos perceber que o treino com resistências promove uma melhoria, a longo prazo, das funções cognitivas.


No entanto, a plasticidade que ocorre no cíngulo posterior, durante a realização do treino, parece estimular importantes mecanismos estruturais corticais que não se mantêm a longo prazo, sendo outros mecanismos que ocorrem à posteriori, em conjunto com os mecanismos que os antecederam, os responsáveis pelos benefícios a longo prazo.


É também importante realçar que maiores valores de preservação do volume do cíngulo posterior durante o treino predizem menores valores de atrofia nas regiões do subiculum e giro denteado um ano após o treino, ou seja, maior preservação do hipocampo.


Assim, as pessoas devem fazer exercício físico tendo em conta não só os seus objetivos, mas também porque reconhecem os inúmeros benefícios que o exercício promove, tais como, melhoria da mobilidade, diminuição do risco de doença coronária, diminuição do risco de osteoporose, diminuição do risco de depressão, melhoria da autoestima, promoção de um estilo de vida saudável, etc.


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Um texto escrito por Tiago Rocha, coordenador científico para a área do Exercício da Master - Science Lab. Licenciado em Ciências do Desporto, com especialização em Treino de Alto Rendimento Desportivo, é mestre em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básicos e Secundário, pela FADEUP e pós-graduado em Reabilitação Neurológica (ESS).

Ver Mais

Fonte:

Hippocampal plasticity underpins long-term cognitive gains from resistance in MCI. NeuroImage: Clinical.

Therapeutically relevant structural and functional mechanisms triggered by physical and cognitive exercise. Mol Psychiatry.

Rates of hippocampal atrophy correlate with change in clinical status in aging and AD. Neurology.

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