Saúde

Como os seus pés afetam as suas costas

Durante a marcha, a nossa massa corporal tem de ser desacelerada pelas propriedades reflexivas do membro inferior

Artigo de opinião original escrito pelo formador Ryan Foley, doutorado em Fisioterapia, co-criador do sistema Integrated Kinetic Neurology (IKN) e formador na Master Science Lab no curso de Integrated Kinetic Neurology Approach (IKN) - Level 1. Tradução da responsabilidade da Master Science Lab.

Já o dissemos vezes e vezes em conta: a gravidade é o nosso mais consistente fator de stress. Temos que aprender a lidar com ela, começando com estratégias simples, antes de evoluirmos para seleções de exercícios muito complexas.

As estruturas mediais do nosso corpo (coluna vertebral, crânio, tórax, pélvis) devem funcionar como plataforma adaptável para responder ao movimento dos nossos membros. A capacidade de carga dos tecidos ao longo dos nossos membros é um dos componentes mais negligenciados da reabilitação lombar. Toda a gente quer ter uma “coluna forte”, mas o que somos muitas vezes encorajados a fazer, inconscientemente, é a tornar a nossa coluna mais rígida. Isto não é o que se pretende, uma vez que uma coluna rígida não é uma coluna capaz de se adaptar para amortecer os impactos inesperados com os quais temos que lidar no nosso dia-a-dia. A tensão crescente ou mesmo a sensação de dor configuram as mais comuns respostas de defesa.

Mas por que é que o sistema nervoso sente necessidade de se proteger? Uma resposta que encontramos frequentemente no contexto clínico para esta questão é uma estratégia de movimento pobre na cadeia inferior, particularmente no complexo do pé e do tornozelo.


Qual é a primeira parte do corpo a entrar em contacto com o chão, quando caminhamos? Sãos os pés. Particularmente, a pele que reveste a base do pé, essa sim é o primeiro tecido a ser sobrecarregado quando nos envolvemos numa atividade de contacto com o solo.

Uma das fases mais importantes da caminhada é quando passamos a carga do calcanhar para toda a base do pé, e o nosso centro de massa se desloca nesse sentido. Esta é a fase da marcha em que mais queremos estabelecer uma cooperação de qualidade entre todos os tecidos que compõem o membro inferior. Existe também um componente muito importante para este EQUILÍBRIO, que é, muitas vezes, subvalorizada. Quando caminhamos em frente, em mais de metade do movimento, temos só um dos pés assentes no chão. Esse fator, combinado com o avanço do nosso corpo e com a força da gravidade que nos tenta puxa para baixo, REQUER uma grande capacidade de cooperação/coordenação entre os tecidos dos membros inferiores. Chamamos a este fenómeno capacidade de resposta dos mecanorecetores.


Com uma melhor resposta, virá sempre uma melhor capacidade de adaptação. Isto significa que eles se poderão adaptar muito melhor, dissipar o stress, e mais importante ainda, ajudar a controlar o nosso equilíbrio, durante aquela fase da marcha em que temos apenas um dos membros apoiados. É possível que encontremos ente fenómeno descrito na literatura como “a estratégia do tornozelo” e é o que se procura a maior parte do tempo, durante fases específicas da marcha.


Quando perdemos a capacidade de controlar a gravidade recorrendo a “estratégias de tornozelo” numa atividade terrestre, isso irá certamente influenciar a forma como as forças são transmitidas através da extremidade inferior. A nossa massa corporal (especialmente a cabeça, os braços e o tronco) durante a marcha, tem de ser desacelerada pelas propriedades reflexivas do membro inferior, e quando perdemos uma estratégia adequada, tipicamente são usadas outras estratégias para controlar a nossa massa corporal.A nossa massa corporal (especialmente a cabeça, os braços e o tronco) durante a marcha, tem de ser desacelerada pelas propriedades reflexivas do membro inferior, e quando perdemos uma estratégia adequada, tipicamente são usadas outras estratégias para controlar a nossa massa corporal. Isto irá acontecer, maioritariamente, em torno da anca e da coluna lombar. Recorrer a uma “estratégia da anca” para controlar a nossa massa corporal durante o movimento é normal quando estamos a tentar adaptar-nos a perturbações maiores, como sermos empurrados. Contudo, se começarmos a recorrer a estas estratégias para controlar os nossos movimentos durante gestos contínuos como caminhar ou até correr, isso irá certamente influenciar o tom expressado nos tecidos em torno da anca e da coluna lombar. Em vez de usarmos uma sequência de controlo distal-proximal (tornozelo – anca), começamos a adotar uma estratégia proximal-distal (anca/coluna lombar – tornozelo). Este padrão de coordenação é algo que queremos definitivamente identificar e direcionar para aqueles que sofrem de dor na lombar. A solução não passa muitas vezes pela “estabilização do core”, mas mais por restaurar propriedades reflexivas dos membros inferiores e estratégias de tornozelo adequadas.


No estudo referido na bibliografia, podemos observar esta resposta adaptativa após repetitivas lesões no tornozelo. Em vez de se usar o pé/tornozelo para desacelerar e controlar a massa do nosso corpo, os participantes demonstraram uma “estratégia da anca dominante”. Poderá estar a pensar, “bem, mas isso não é positivo? Queremos ancas fortes, certo?” Mas lembremos, isto não tem que ver com força. Tem que ver com cooperação. E isso começa no pé. Isto pode, mais tarde, ser reforçado pela compreensão das propriedades reflexivas da coluna lombar, que serão aprofundadas em grande detalhe no curso de Integrated Kinetic Neurology Approach (IKN) – Level 1.


Importante:
Não se foque demasiado nos tecidos da coluna lombar em clientes com dor lombar. Lembre-se: nós vivemos num mundo conduzido pela gravidade e, por isso, cooperação entre todos os tecidos desde o pé até à coluna lombar é a chave.


Dica de avaliação:
Se os seus clientes sofrerem de dor lombar, dedique mais tempo a inteirar-se do historial dessa lesão, especialmente no que diz respeito ao passado ao nível de lesões no pé e no tornozelo. Episódios passados de fascite plantar, entorse do tornozelo, problemas no tendão de Aquiles e outras questões relacionadas, podem orientá-lo quanto ao tipo de estratégias a usar durante o processo de reabilitação. É claro que existem muitas outras situações para as quais devemos olhar, como são as estratégias de movimento para identificar a capacidade que o utente tem de expressar estratégias de tornozelo adequadas. Também esta questão será aprofundada no curso.


Referências bibliográficas:

Son, et. al, Altered Walking Neuromechanics in Patients With Chronic Ankle Instability, Journal of Athletic Training, volume 54, número 6, junho 2019

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