Aquando do meu artigo sobre o posicionamento do pés durante a realização de um agachamento, salientei que existem variações anatómicas/ estruturais que afetariam o “normal”/comum posicionamento dos pés.
Uma destas variações é o Ângulo de Torção do Fémur. Assim, a existência de uma maior Anteroversão ou Retroversão do Fémur, tem uma influência direta na biomecânica dos membros inferiores.
Antes de prosseguirmos, temos de definir o que é entendido por Ângulo de Torção do Fémur: a Torção Femoral, descreve a rotação (torção) relativa entre o eixo do Fémur e o seu colo (Kinesiology of the Musculoskeletal System - Donald Neumann).
Normalmente, o colo femoral projeta-se anteriormente, relativamente a um eixo medial-lateral através dos côndilos femorais, cerca de 15° (alguns autores referem valores entre 8° - 15°) - estes graus de torção são considerados anteroversão normal.
Quando o grau de torção do fémur é significativamente diferente de 15° é considerado anormal. Desta forma temos (Fig. 1 e 2):
- uma torção significativamente maior que 15° é chamada de excessiva anteroversão;
- uma torção significativamente inferior a 15° é chamada de retroversão.
Ao analisarmos as figuras, facilmente percebemos que:
- se um indivíduo possui uma excessiva anteroversão, a fim de aumentar a congruência entre a cabeça do fémur e o acetábulo, os dedos dos pés vão apontar para “dentro” - “in-toeing” - se um indivíduo possui retroversão, a sua capacidade de rodar externamente o fémur (apontar os dedos dos pé para “fora”) vai estar diminuída, devido a questões estruturais/ósseas.
Tendo em conta a influência destes fatores anatómicos, é de extrema importância que o Fisioterapeuta/PT/Treinador saiba que tipo de corpo tem sob a sua responsabilidade.
Assim, existe um teste que permite-nos ter uma ideia relativamente fidedigna sob estas questões anatómicas. Para tal podemos realizar o “CRAIG's TEST” (Fig. 3), pois é de fácil aplicação (embora seja necessária alguma familiarização com o processo e com as questões anatómicas).”
Neste teste, o paciente/aluno encontra-se deitado em posição pronada (barriga para baixo), com o joelho do membro inferior a ser testado colocado a 90º de flexão. Em seguida, o examinador roda o quadril medial e lateralmente, enquanto palpa a área do grande trocanter, até encontrar o ponto em que esta proeminência óssea é mais lateralmente proeminente. Após ser encontrado este ponto, o examinador mede então o ângulo do quadril para determinar a quantidade de anteversão ou retroversão, utilizando o eixo ao longo da tíbia e uma linha perpendicular à marquesa como referências.
Mesmo que não seja usado um dispositivo de aferição, como um Goniómetro, este teste permite-nos ter uma visão orientadora da anatomia articular do quadril e fémur.
Para uma mais detalhada observação/avaliação, estas características anatómicas devem ser relacionadas com ângulo de rotação do acetábulo (Fig. 4 - “Asymmetry as a Foundational and Functional Requirement in Human Movement - From Daily Activities to Sports Performance”) o ângulo de inclinação do colo do Fémur (Fig. 5 - Kinesiology of the Musculoskeletal System - Donald Neumann)
Gostaria de salientar que as questões relativas à rotação do joelho durante o agachamento continuam a ocorrer: chama-se rotação automática do joelho, porque por mais que não gostemos a rotação do joelho processa-se dessa forma.
Tendo em conta isto, um artigo recente de Nēmec et al. (2019) - veio reforçar o que foi escrito no artigo anterior. O referido estudo evidenciou que durante a fase descendente do Agachamento o fémur, que na extensão total apresenta uma rotação interna de 12,8°, realiza uma rotação externa de 12,2°.
Assim, e em jeito de conclusão, podemos utilizar o Teste de Craig para obtermos informação importante sobre questões relativas à articulação coxo-femoral, afim de aferirmos se o nosso aluno se enquadra numa anatomia mais comum, ou se por outro lado faz parte do grupo de indivíduos que apresenta variações anatómicas relevantes.