Saúde

Dor visceral referida poderá estar na origem de disfunção músculo-esquelética

Influência da dor visceral referida nas patologias do sistema músculo-esquelético

A sua prática profissional certamente já lhe possibilitou constatar que as disfunções do sistema músculo-esquelético estão presentes em grande parte dos utentes. 


Igualmente comum é a procura de ajuda clínica por parte de pacientes com dores agudas osteomioarticulares, muitas vezes com postura antálgica ou até com limitações dos movimentos básicos do dia-a-dia, porém sem relato de trauma ou algum movimento mais vigoroso que possa ter desencadeado a sintomatologia.


Quantos foram os utentes a quem corrigiu disfunções estruturais, porém na sessão seguinte manifestavam recidivas?


Uma das possibilidades a considerar é uma adaptação desse segmento ao sistema visceral.


Situações que geram um aumento do volume de um órgão – sem adaptação dos tecidos à sua volta a esse espaço –, podem favorecer uma sobrecarga mecânica nesse órgão pelo aumento da pressão. Também pelo contrário, pode ocorrer que a víscera diminua o seu volume, e se os tecidos adjacentes não permitirem essa adaptação, diminuindo o espaço à sua volta, o tecido dessa estrutura pode trabalhar em tensão.


Segundo Chantepie, et al. [1], as patologias viscerais podem gerar dores que se irradiam à distância, tensões musculares, disfunções vertebrais e perturbações neurovegetativas.


Falamos, portanto, de dor visceral referida, ou seja, dor sentida num local distante do epicentro do problema (víscera) que ocorre porque em cada nível da coluna vertebral saem terminações nervosas para todos os tecidos, fazendo com que exista entre eles uma rede neural de interconexão.


Se um desses tecidos está em desequilíbrio, todos os demais também serão afectados e, dessa forma, uma víscera em disfunção poderá gerar alterações dolorosas em músculos e regiões da pele através da inervação que esses tecidos compartilham em comum.


A dor visceral referida localiza-se assim nos miótomos e dermatómeros supridos pelos neurónios que se projectam nos mesmos segmentos medulares das vísceras afectadas. [2]


Sendo assim, não é suficiente tratar somente a região dolorosa sem tratar a víscera. A osteopatia pode ajudar com técnicas manuais direccionadas ao tratamento visceral, com o objectivo de melhorar a sua mobilidade fisiológica, vascularização e inervação, eliminando as causas das algias.


Há múltiplas etiologias para a dor visceral, incluindo: [3]

- Inflamação (aguda e crónica)

- Infecção

- Distúrbios dos processos mecânicos normais (por exemplo, dismotilidade gastrointestinal)

- Neoplasias (benignas ou malignas)

- Alterações nos nervos transmissores de sensações viscerais

- Isquemia


Tradicionalmente, a dor visceral crónica tem sido categorizada como "orgânica", se causada por uma lesão patológica que é detectável por meios auxiliares de diagnóstico, ou "funcional", onde a etiologia permanece obscura e pode ser devida a mudanças ainda indefinidas na hipersensibilidade visceral, quer a nível periférico ou central. [3]


A anamnese e o exame físico, na maioria dos casos, são suficientes para determinar um diagnóstico funcional.


O tratamento dos distúrbios da dor visceral não deve ser protelado, a menos que mascare o processo de diagnóstico. [3]


A manipulação visceral fundamenta-se na mobilização de tecidos, fáscias e ligamentos, auxiliando nos desequilíbrios estruturais e funcionais em todo o corpo, incluindo músculo-esquelético, vascular, respiratório, digestivo, nervoso, urogenital e vasculares, sendo um conceito essencial a qualquer profissional que pretenda oferecer ao seu utente uma abordagem clínica completa e diferenciada.

Ver Mais

Fonte:

[1] Chantepie A., J., F. Pérot, PH. Toussirot. Osteopatia Clínica e Prática. Editora Andrei.com.br, São Paulo/SP, 2008.

[2] Olden KW. Rational management of chronic abdominal pain. Comp Ther. 1998;24(4):180-6.

[3] International Association for the Study of Pain (IASP). Apresentação aguda vs crónica da dor visceral, 2012.

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