Exercício

Introdução ao movimento humano, por Diogo Ribeiro e Beatriz Moura

Por detrás do movimento biológico

O ser humano de uma perspectiva dualista, como foi aos olhos de René Descartes, seria puramente mecanicista, onde a biomecânica (tratada por meio da mecânica newtoniana) se encontraria no pináculo da resolução de todos os problemas ao nível do exercício físico. No entanto, esta visão não é de todo aceite pelos neurocientistas. A consciência, que se crê ser um dos maiores mistérios do universo, antagoniza por completo esta visão.


O corpo e mente são um só, onde o fluxo de informação é continuamente descontínuo e não linear. Falamos da constante e permanente troca de informação espácio-temporal que se processa de modo diferente, falamos de 86 biliões de neurónios, onde cada um deles poderá comunicar com dezenas de milhares. Toda esta complexidade torna impossível a previsão relativamente ao comportamento humano (movimento).


Llinás faz referência à astronómica combinação possível em termos de activação muscular em movimentos do quotidiano, podendo ultrapassar 10^15 o número de possibilidades de os músculos serem activos para o realizar do movimento. Agora pensemos, se efectivamente a matemática se processa do modo que nós humanos a conseguimos conceptualizar, imaginemos o frenetismo de cálculos existente entre a informação proveniente dos sensores da periferia, não só dos proprioceptores como também dos órgãos sensoriais, e a sua interpretação e reinterpretação a cada instante de nova informação que, em loop, percorre periferia-centro-periferia-centro, de forma continuamente descontínua para que o movimento se torne harmonioso e fluído do modo que o percepcionamos.


Além da assustadora sensação do pensar nesta situação, é impossível não ficar curioso e apaixonado pelo esforço de entender como tudo isto ocorre e como tudo isto se transforma no fluido movimento que nos garante a sobrevivência.


No entanto, estudos dizem-nos que a preferência no que concerne ao movimento respeita uma tendência, a geodésica. Conceito este que remete à condição espacial e que quer dizer a distância mais curta ou mais longa entre dois pontos de uma superfície esférica. 


Posto isto, toda a mecânica rege-se por um imperativo: parcimónia energética, e o próprio movimento tende mesmo a ser o mais económico e não só em termos espaciais, ou seja, o caminho mais curto, pois esta definição de que o caminho mais curto é o mais económico e rápido leva-nos a outro conceito, o de braquistócrona, onde o caminho mais económico por questões físicas, permite que o movimento seja mais rápido e mais eficiente energeticamente, sem que seja necessariamente o mais curto espacialmente.


Importante será também perceber que a evolução dos sistemas biológicos e sua consequente adaptação é um processo lento, leva anos e falamos em milhões. Perceber que muitos aspectos primitivos estão ainda presentes em nós e que muita da informação a que temos acesso foi por nós construída, alicerçada em dogmas e condicionada por muitos outros aspectos a nós intrínsecos, deveria pôr-nos ainda mais cautelosos nas nossas afirmações e na nossa tomada de decisão.


Repare-se na proliferação de construções com dedo do ser humano que alterou por completo o espaço que nos envolve, este espaço artificial onde conceitos como simetria, linearidade imperam e de certo modo são desajustados com o que a natureza “criou” (isto que seja entendido em sentido metafórico, o criacionismo não entra na tese), querendo com isto dizer que criamos algo que desvia e desrespeita a falta de perfeição da natureza, mas que mesmo assim funciona bastante bem.


Euclides, com o seu constructo mental de uma geometria linear, permitiu de certo modo a possibilidade de construir fortalezas que nos albergam e nos permitem locomover de A para B de forma mais fácil e económica, no entanto será essa geometria veículo para uma análise de um sistema (corpo humano), não linear e não simétrico?


Creio que não, no entanto faz-nos uma aproximação, mas é isso mesmo, uma aproximação e teremos que ter atenção a esse aspecto para que a aproximação não nos afaste da realidade.


A informação sensorial proveniente do exterior ao nosso habitáculo é processada a uma velocidade frenética. A nível central ela mensura o grau de estiramento dos tecidos passivos e activos que possuem sensores especializados a essa informação. Todos os tecidos emitem informação espacial a ser processada centralmente, e aí se a atenção/concentração estiver direccionada à tarefa do movimento, a precisão do cálculo será enorme e o risco de lesão diminuto.


A sugestão de que a tarefa que envolva o movimento deva ser essencialmente cognitiva, é no sentido que a atenção esteja direccionada ao realizar da tarefa, e aí sim o risco de lesão será diminuído, uma vez que centralmente todo o foco está na actividade a ser realizada.


Feitas estas pequenas e sucintas introduções ao movimento humano, claramente percebemos o quão volátil é a área que nos encontramos.


A consciência de que a nossa área de trabalho é pantanosa, é vital. A gestão da frustração no momento em que, na maioria das vezes, não sabemos se a opção tomada é a mais acertada, é necessária. No entanto, são imperativos o bom senso e o estudo contínuo, possuir mais ferramentas para aumentar a efectividade do nosso trabalho e diminuir a incerteza.


O estudo contínuo não se trata de pura curiosidade intelectual gratuita para as horas de repouso, assume papel primário no terreno na altura da tomada de decisão.

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Fonte:

Autores: Diogo Ribeiro e Beatriz Moura

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